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Melanie JOY. Por que amamos cachorros, comemos porcos e vestimos vacas – uma introdução ao carnismo. Cultrix, 198 páginas.

A obra da psicóloga social Melanie Joy, Por que amamos cachorros, comemos porcos e vestimos vacas – uma introdução ao carnismo, foi publicada originalmente em 2010, e é fruto de sua tese de doutorado. Dividida em sete capítulos, inicia com um belíssimo prefácio de assinado por John Robbins. No embalo do titulo da obra, Robbins diz que essa questão sempre foi presente em sua vida: por que amamos uns e comemos outros? Essa relação está presente nas leis:
“Existem leis em todos os cinquenta Estados americanos proibindo a crueldade para com os animais. as leis variam de um Estado para outro, mas não com relação a um ponto: em todo Estado, a legislação que proíbe a crueldade para com os animais exclui aqueles destinados ao consumo humano. Em cada um dos cinquenta Estados, se estamos criando um animal para produzir carne, leite ou ovos, podemos sem restrições submeter esse animal a condições que, se fossem aplicadas a um cachorro ou a um gato, nos levaria à prisão.”

resenha-por-que-amamos-cachorros-comemos-porcos-e-vestimos-vacas-uma-introducao-ao-carnismoPara Robbins o confinamento industrial de animais se assemelha a Auschwitz e a Dachau, e isso é feito para gerar lucro. O motor que movimenta essa maquinaria de coisificar vidas é o interesse econômico. Isso torna uma cultura de distinções entre os que podem ser membros da família e os que podem morrer para alimentar essa família, em tradição.

No primeiro capítulo “Amar ou comer?”, Joy realiza uma experiência mental com o leitor. Se no meio de um jantar bem apetitoso e suculento, você pede a receita para a anfitriã, ela diz que é carne de Golden Retriever com alguns temperos, como você reage? A autora relata que a cena comum em solo americano é a repulsa ao saber que é carne de cachorro e o alívio logo em seguida ao saber que na verdade é carne de vaca. Que sentimento é esse? O ato de comer um animal e não outro, é fruto da cultura do país. O gosto é uma construção cultural. Tanto a predileção quanto a repugnância em comer determinados animais é oriundo do aprendizado.

O sistema que nos leva da empatia à apatia, Joy chama de entorpecimento psíquico. O foco central dessa obra é justamente essa questão do aprendizado que leva o individuo da empatia à apatia. Os mecanismos de entorpecimento psíquico que serão apresentados nos próximos capítulos são: o ato de negar, o ato de evitar, a rotinização, a justificação, a objetificação, a desindividualização, a dicotomização, a racionalização e a dissociação.

“Carnismo: as coisas são assim mesmo”, é o título do segundo capítulo. Nele a autora relata um exercício que realiza com seus alunos na universidade. É exigido que os alunos definam o cão e o porco. A partir dos elogios ao cão e das ofensas ao porco, Joy vai maieuticamente conduzindo os alunos a pensarem sobre a contradição das afirmações. A autora pergunta o que faz toda uma sociedade fechar os olhos para uma indústria que mata 10 bilhões de animais por ano (fora os animais marinhos) só nos EUA? E a resposta é o que ela denominou de carnismo.

“Comemos animais sem pensar no que e por que estamos fazendo pelo fato de o sistema de crenças que está por trás desse comportamento ser invisível. Esse sistema de crenças invisível é o que chamo de carnismo. Carnismo é o sistema de crenças que nos condiciona a comer certos animais.” Como ideologia enraizada, naturalizada, o carnismo torna-se invisível, segundo Joy. É classificado pela autora como uma ideologia violenta, pois está fundada sobre a violência física, “a carne não pode ser obtida sem o abate”. O que mantém o carnismo como ideologia, como sistema de crenças é sua invisibilidade psicossocial. Se a maioria da população não tem coragem para ver cenas de abate, e quando as vê, se compadece com o animal, o que as leva a ainda comer o resultado desse assassinato? A invisibilidade do processo que transformou um ser senciente em um produto: a carne.

No terceiro capítulo, “Como as coisas realmente são”, a epígrafe que o abre é emblemática: “Torne a mentira grande, torne-a simples, continue a dizê-la e finalmente acreditarão nela” de Adolf Hitler. Nesse capítulo Joy pergunta onde estão os 10 bilhões de animais terrestres consumidos anualmente nos EUA, fora os mais de 10 bilhões de peixes. Os números de animais abatidos por segundo, por minuto, por dia, por ano, são assombrosos. Se formos para o total anual mundial isso deixaria o numero de todos os mortos em todas as guerras num patamar risível.

Onde estão os animais criados para consumo? Eis aqui a invisibilidade. As pessoas só conhecem o pedaço do animal no açougue ou no supermercado. Assim fica mais fácil para a indústria manter a propaganda ideológica de que as vacas, as porcas, e as aves são criadas soltas, comendo livremente, bebendo água fresca, cuidando dos filhotes, felizes e saltitantes. Essa imagem bucólica esconde como as coisas realmente são. A autora irá apresentar a senciência nas porcas, nos porquinhos, nas vacas confinadas e estupradas para produção de leite, nos vitelos, nas galinhas e perus, nos cães, nos peixes e outros animais marinhos. De maneira sucinta lemos sobre suas emoções e modos de viver socialmente. Em seguida Joy descreve os métodos de confinamento, tortura e assassinato desses animais e uma outra duvida surge ao fim do capítulo:
“Em ideologias violentas, não só a violência em si mesma é invisível; os seus vestígios também são. Onde estão todas as “sobras” da produção de carne? Onde estão as pilhas e pilhas de animais caídos, os mais de 500 milhões de animais que podem ser atirados uns em cima dos outros e abandonados para morrer?”.

Até um certo ponto as pessoas sabem o que ocorre para que tenha um bife ou um copo de leite sobre sua mesa. Mas preferem ficar com o pouco que sabem e ignorar o resto. Segundo Joy, quanto mais conhecimento, mais claro fica algo que era invisível, e essa clareza exige atitudes mais justas e sensatas.

O quarto capítulo, sobre o “Efeito colateral: as outras vítimas do carnismo”, trata basicamente dos animais humanos que trabalham nos matadouros e na indústria de laticínios (onde desenvolvem uma série de doenças), dos que moram próximos as fazendas industriais e estão diretamente convivendo com a poluição produzida por essas instalações (sendo envenenados por uma infinidade de elementos químicos cancerígenos que poluem ar, água e terra), e por fim, os consumidores (estão ingerindo hormônios sintéticos, herbicidas, pesticidas, fungicidas, agrotóxicos, fezes, urina, bactérias e vírus).

Joy reproduz um interessante quadro com os principais riscos operacionais na indústria de processamento da carne, que os trabalhadores estão submetidos. O trabalho mais violento e perigoso nos EUA, e um violador declarado dos Direitos Humanos. Os trabalhadores desses locais tornam-se devido à rotinização, matadores condicionados, sádicos e insensíveis. O capítulo é concluído com uma interessantíssima crítica ao que se tornou a democracia nas mãos da bilionária indústria chamada pecuária. Para a autora, a democracia deveria se chamar carnocracia.

O quinto capítulo trata da “Mitologia da carne” que justifica o carnismo. Para justificar como a empatia com os animais na infância foi aos poucos se tornando apatia ou um “não me interessa” quanto aos 10 bilhões de animais mortos anualmente nos EUA, são criados mitos. Segundo Joy existem três Ns que justificam o carnismo: comer carne é normal, natural e necessário. Os mitos de que comer carne é normal, natural e necessário são criados e mantidos por quase todos os setores da sociedade: as indústrias, as universidades, as igrejas, as escolas, o congresso… Os pais, professores, líderes religiosos, jornalistas, amigos… Contribuindo para manter os mitos vivos. Em um interessante box, Joy resume a clássica pesquisa de Stanley Milgram sobre a obediência à autoridade. Ou seja, se professores e médicos dizem que comer carne e beber leite é normal, natural e necessário, então não há nada a ser questionado.

Comer carne é normal, pois já se tronou norma social que descreve e prescreve como devemos nos comportar. Assim caímos na lei do menor esforço. E se comemos carne há milhões de anos, então é natural, Segundo Joy, as pessoas colocam o “natural” como sinônimo de “justificável” e ignoram o fato de que infanticídio, canibalismo, incesto, escravidão, racismo, entre outras práticas hoje condenáveis em boa parte do planeta, também já foram por séculos tidas como naturais. Outro argumento em favor do “natural”, é a falácia de que os humanos estão no topo da cadeia alimentar. E é necessário como tudo que é natural. Se for natural, logo é necessário. Proteína é necessária ao nosso corpo, proteína só tem na carne, logo, é necessário comer animais. Carnistas são grandes mestres em falácias. Para a autora, para que todos os mitos que cercam o consumo de carne continuem intactos é preciso que acreditemos em outro mito, o do livre-arbítrio.

No sexto capítulo a autora dissertará sobre a interiorização do carnismo. Para tal ela recorre a temática do filme Matrix, dos irmãos Wachowski, e faz uma analogia onde matrix é o sistema carnista e Neo é o consumidor padrão que acredita em tudo que o sistema lhe ensinou. Para Joy a interiorização e defesa do carnismo se dão a partir de um trio cognitivo: objetificação, desindividualização e dicotomização. A objetificação é tão antiga quanto a presença do humano na Terra. Tornar o outro um objeto, uma coisa, um produto. E a porcos são presuntos, bois são bifes, animais são unidades ou peças de manejo. Para a lei os animais são propriedade, logo, podem ser comprados, vendidos, podemos negociá-los, trocá-los. Desindividualização também é uma estratégia antiga. Não vejo o individuo, com sua personalidade e emoções, o que vejo é um porco no meio de milhares de porcos, uma vaca no meio de milhares de vacas. Uma abstração, um monte de coisas. A dicotomização é o processo de encaixar os animais em duas categorias: os comestíveis e os não comestíveis. Segundo a autora, o avanço tecnológico das indústrias de exploração animal provoca distorções e distanciamento psicológico do comedor carnista do animal comido. Fomenta o trio cognitivo. O carnismo é definido como “um sistema social, uma matriz social. Mas também um sistema psicológico, um sistema de pensamento, uma matriz interior. É uma matriz dentro da matriz.”

No último capítulo, chamado “Dando testemunho: do carnismo à compaixão”, Melanie Joy inicia nos relatando a jornada de Emily, a vaca que fugiu do matadouro e virou símbolo da luta pela liberdade. A força do testemunho é exaltada pela autora como algo capaz de provocar compaixão e trazer empatia de volta. “Um movimento é bem-sucedido quando atinge uma massa crítica de testemunhos, isto é, testemunhos em quantidade suficiente para inclinar as balanças de poder a favor do movimento.” Ao indicar três passos que a pessoa pode fazer, que seria um testemunho em ação, ela coloca como primeiro a redução do consumo de carnes. Uma pena. Depois de uma reflexão crítica tão interessante em termos psicossociais, não lemos que o primeiro passo deve ser a abolição do consumo. O capítulo é concluído sobre a coragem de testemunhar.

A obra de Melanie Joy é uma leitura importantíssima para todos aqueles interessados em entender minimamente como é o processo que nos impede de ver o quão irracional é o consumo de produtos animalizados. Um sistema abarrotado de absurdos, incoerências e paradoxos. Falacioso do inicio ao fim, mas ideologicamente é extremamente poderoso. Ao fim da obra a autora acrescenta um guia para discussão em grupo do livro. Cada capítulo é colocado a partir de questões que conduzem o debate sobre a problemática trazida pela autora.

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