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Sônia T. FELIPE. Carnelatria: escolha omnix vorax mortal. Ecoânima, 378 páginas.

A obra da filósofa animalista abolicionista Sônia Felipe é composta por um prefácio, uma introdução que já da o tom do conteúdo que a leitora e o leitor irão encontrar nas páginas seguintes; um glossário que apresenta os principais termos e conceitos usados pela autora no decorrer da obra. São cinco capítulos, cujo foco central é a devastação provocada pela dieta padrão ovo-galacto-carnista, ou como traz o titulo: omnix vorax mortal. São 597 notas de referência e explicativas, duas referências bibliográficas, uma consultada para a elaboração da obra e outra, a que a própria autora produziu nas últimas duas décadas, além de seus vídeos. Por fim, um índice remissivo, que muito ajuda quem busca um tópico especifico abordado no livro.

A primeira seção do capítulo um, “omnix vorax”, como não poderia deixar de ser, trata da “carne”. Já na primeira linha vemos a definição de carne que a autora utilizará, retirada da versão da Bíblia do Rei Jaime I, de 1611, tendo carne como qualquer comida mastigável – não sendo pastoso ou líquido – fica compreensível a inclusão de outros alimentos animalizados que não só os músculos de origem bovina. Temos a distinção histórica entre carne vermelha e carne branca, a animalização de alimentos vegetais, e uma previa sobre os aminoácidos, assunto tratado com uma riqueza de informações na seção seguinte sobre as “Proteínas”. A filósofa irá desmontar o falacioso mito das proteínas animalizadas criado pela indústria alimentícia e mantido por seus garotos-propaganda: os médicos e nutricionistas.

Na seção “canino”, a filósofa define coerentemente o ser humano como falso carnívoro, pois “os carnívoros estritos, além de devorarem os músculos, ingerem o couro, cérebro, o coração, os pulmões, os órgãos reprodutores, os ossos, os nervos, o conteúdo das vísceras e o sangue de suas vítimas”, e esse ato de devorar é feito com “o sangue ainda quente e as células ainda vivas”. Portanto, os humanos “são seletivos em sua voracidade mortal”. Assim como falsos carnívoros, milhões de pessoas são pseudovegetarianas.

Apegados a “dieta maternal” tradicional, retiram um tipo de cadáver do prato, em especial a tal “carne vermelha”, ou algum derivado de secreções de fêmeas não humanas, e se autoproclamam vegetarianos. “A designação vegetariana, vegetariano, deveria ser aplicada exclusivamente a quem não ingere nada de origem animal”. Simples assim. O pseudovegetariano não passa de um onívoro apegado desde a infância a um hábito dietético especista antropocêntrico.

Ao tratar da laboriosa vida das abelhas, Sônia Felipe destaca que além do Brasil ser o maior matador de animais do mundo, é também o maior aplicador de venenos na produção de alimentos no mundo; envenenamos a terra, o ar e as águas. Assim como doloroso é o fim que os humanos estão dando as abelhas, também o é o dado as fêmeas cochonilhas. 42 bilhões de cochonilhas são assassinadas por ano após passarem pela tortura da desidratação de seu corpo. Em seguida temos a maior seção do capítulo, que é dedicada as “Plantas”. A autora irá demonstrar de forma clara e simples o quão falaciosa é a tese dos carnistas quanto ao “sofrimento” das plantas. Por fim, somos apresentados ao neologismo “mizooginia”, ou seja, o estado hostil, desprezível e aversivo com o que o ser humano lida com as fêmeas de outras espécies como: galinha, vaca, porcas, éguas, abelhas e cochonilhas. O sofrimento das fêmeas é estendido aos seus filhos, conduzindo-nos ao zooinfanticídio.

No segundo capítulo da obra, a filósofa dissertará sobre a devastação animal e ambiental, frutos de uma escolha dietética mortal. A dieta omnix vorax movida pelo consumo de peixes, carne bovina, suína, de frango, ovos, leite e laticínios, é duplamente responsável pela mudança climática do planeta. Em quarenta laudas – matematicamente bem recheadas – a autora descreverá toda a devastação provocada por essa escolha dietética. A solução para toda a destruição da vida animal e ambiental é muito simples, a adoção da dieta vegetariana abolicionista praticada pelos veganos.

O terceiro capítulo trata de uma temática importantíssima para a compreensão de como se origina e se mantém a Carnelatria: a propaganda. Tema caro à Filosofia Política contemporânea e a Sociologia crítica, a propaganda analisada aqui pela autora é a promovida pela medicina a serviço da indústria farmacêutica e do agronegócio. Segundo Sônia Felipe é um engano a crença de que escolhemos livremente o que comemos, primeiro porque desde bebês somos dado de comer aquilo que os pais acreditam ser o melhor e mais saudável, depois, já crescidos, somos doutrinados a manter a dieta omnix vorax pela propaganda ideológica feita por médicos e nutricionistas.

“Está escrito com todas as letras no livro Propaganda, nada mais nada menos do que isto: se querem vender um alimento, peçam aos médicos para o elogiarem como benéfico à saúde humana. Conforme afirma Mark Crispim Miller, na apresentação da reedição da obra, Edward Bernays “sabe, com certeza matemática, que um grande número de pessoas seguirá os conselhos dos doutores, porque ele compreende a relação psicológica de dependência dos homens em relação a seus médicos”.

Diante do bombardeio propagandicio da indústria alimentar animalizada, com ajuda de médicos e nutricionistas representantes de Deus na terra quanto ao que os humanos precisam comer, a autora apresenta de forma bem simples as funções dos 10 aminoácidos essenciais e suas fontes vegetais. Depois de perder a inocência, basta buscar na feira as proteínas de que necessitamos.

O quarto capítulo é dedicado ao ecocídio, ou seja, ao extermínio de ecossistemas naturais inteiros pelo
uso que os humanos fazem de toxinas e venenos. Os impactos de alguns venenos serão apresentados pela autora, dentre eles o glifosato, neonicotinoides (imidacloprido, clotianidina, tiametoxam) e fenilpirazois (fipronil). O destaque será dado ao glifosato. A cadeia de mortes que esse antibiótico (quelante mineral e aminoácido artificial) irá provocar nos ecossistemas naturais e consequentemente nos animais humanos e não humanos é assustadora. No Brasil, que ocupa o segundo lugar no mundo no cultivo de transgênicos, não se lê nada crítico sobre esse matador nada seletivo que é o glifosato, contido no ar, nas águas, no solo, nas plantas e nos animais.

No quinto e último capítulo da obra, Sônia Felipe reflete questões atinentes a justiça ambiental e a ética animalista abolicionista. Tal empreitada é iniciada com a importantíssima distinção conceitual entre empatia e simpatia: “na simpatia, nós tememos que o outro deixe de existir porque ele é uma expansão do corpo no qual vibramos. Na empatia, tememos que deixando de existir, esse outro tenha uma perda que é dele, não pode seguir vivendo a experiência de coexistir (…) Na simpatia, temos prazer em expandir nosso ego através do outro. Na empatia, tememos que o outro seja aniquilado e nos oferecemos como escudo para protegê-lo”. A empatia é definida como um instrumento ético fundamental para os ativistas dos direitos animais, é o que os permite expandir o circulo moral. Por outro lado, a empatia dos ativistas veganos abolicionistas para com os animais não humanos provoca antipatia na população galacto-carnista. Antipatia que advém do especismo que os impede de se colocar no lugar do outro.

Na penúltima seção do capítulo, Justiça Animal e Ambiental, vemos que a autora busca como recurso argumentativo para discutir a questão a teoria da justiça de John Rawls. A Filósofa aponta que as questões da justiça aplicadas aos animais não humanos e ao meio ambiente não abordadas por Rawls no auge da Revolução Verde, passados quase meio século, continuam sendo negligenciadas. “Está comprovado que ordenar a sociedade com base em normas de justiça liberal, antropocêntrica e especista não foi uma boa ideia para se alcançar a justiça animal e ambiental”.

A ética animalista abolicionista é o tema de conclusão da obra. Sônia Felipe irá descrever de forma sucinta e clara os três traços formais de um principio ético, ou seja, a universalizabilidade, a generalidade e a imparcialidade; e, um quarto traço, que é a exigência substancial: a finalidade. Para a autora a radicalidade abolicionista vegana atende a todos esses traços que sustentam um princípio ético.

A obra, Carnelatria: escolha omnix vorax mortal, é mais uma contribuição fundamental da filósofa brasileira Sônia Felipe à população como um todo. A leitura dessa obra é indispensável tanto para veganos quanto para onívoros adeptos da dieta padrão. Como seu irmão Galactolatria: mau deleite, Carnelatria é de cunho interdisciplinar, rico em informações, dados, fontes; e de um teor crítico importantíssimo para qualquer debate ético prático. Que a leitura dessa obra desperte novos olhares, novos sabores, a caminho de um novo modo de vida genuinamente ético, retirando onívoros relutantes da nada inocente dieta padrão mortal.